domingo, 27 de fevereiro de 2011

Será?


Foram-se os amores que tive ou me tiveram. Partiram num cortejo silencioso e iluminado. A solidão me ensina a não acreditar na morte nem demais na vida: cultivo segredos num jardim onde estamos eu, os sonhos idos, os velhos amores e os seus recados, e os olhos deles que ainda brilham como pedras de cor entre as raizesGuardei-me para ti como um segredo Que eu mesmo não desvendei: Há notas na guitarra que não toquei, Há praias na minha ilha que nem andei. É preciso que me tomes, além do riso e do olhar, Naquilo que não conheço e adivinhei; É preciso que me ensines a canção do que serei, e me cries com teu gesto que ainda nem sonhei.Que meus dedos não te prendam Mas contornem teu raro perfil Como lábios tocam um anel sagrado. Quero que o meu amor te seja enfeite E conforto, porto de partida para a fundação Do teu reino, em que a sombra Seja abrigo e ilha. Quero que o meu amor te seja leve Como se dançasse numa praia deserta.

Pensando no retorno.

Nada entendo de signos: se digo flor é flor, se digo água é água. (mas pode ser disfarce de um segredo). Se não podem sentir, não torçam a arvore de coral do meu silêncio: deixem que eu represente meu papel. Não me queiram prender como a um inseto no alfinete da interpretação: se não me podem amar, me esqueçam. Sou um homem sozinho num palco, e já me pesa demais todo esse ofício. Basta que a tortura da vida das palavras deite seu fogo ou mel na folha quieta, num texto qualquer com o meu nome embaixo.

Olho aberto

O amor nos tira o sono, nos tira do sério, tira o tapete debaixo dos nossos pés, faz com que nos defrontemos com medos e fraquezas aparentemente superados, mas também com insuspeitada audácia e generosidade. E como habitualmente tem um fim - que é dor -complica a vida. Por outro lado, é um maravilhoso ladrão da nossa arrogância. Quem nos quiser amar agora terá de vir com calma, terá de vir com jeito. Somos um território mais difícil de invadir, porque levantamos muros, inseguros de nossas forças disfarçamos a fragilidadecom altas torres e ares imponentes. A maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranqüilidade, querer com mais doçura. Às vezes é preciso recolher-se para amar melhor