
Como muitos aqui já sabem, depois de 4 anos e meio sentado nos bancos da universidade,finalizei meu curso de graduação em jornalismo. Com o término da faculdade foi anúnciada a decisão do Supremo Tribunal Federal – STF – de por fim à obrigatoriedade do diploma para atuação como jornalista no Brasil. Diante disso, muitos dos meus amigos, que ainda continuam na academia, e meus familiares, me perguntam: e agora, o que vai ser de você?
Tudo bem que faço parte de uma parcela privilegiada de estudantes recém formados, que sai da universidade e garante logo um emprego fixo, com carteira assinada e um salário razoável. Mas esse resultado, é bom deixar claro, só foi possível graças ao produtivo período que passei dentro da academia, aprendendo, com todas as ferramentas disponíveis (e com todos os mestres do jornalismo que esbarrei por lá), a entender esse negócio de ser jornalista. Eu me preparei para a profissão. Diferente do que prega a decisão do STF.
Sendo assim, por quê haveria eu de concordar com o senso comum (?) de que qualquer pessoa pode tornar-se jornalista, apenas por escrever bem ou por ter jeito para a coisa? Ou que, por estudar Sociologia, Ciência Política ou Economia, está mais apto do que um repórter diplomado em Comunicação, para informar o público sobre a sociedade, sobre a política e o preço do pãozinho diário?
Acontece que a dinâmica é a seguinte: no Brasil, os veículos de comunicação estão concentrados nas mãos de poucos empresários e, por isso, já são controlados o suficiente para ‘informarem’ o que bem entendem. Olha aí o exemplo da Veja! (a revista que adoro odiar e odeio adorando). Com a decisão do STF, estaremos diante da contaminação maciça. Explico. A alienação financeira – afinal de contas a informação é um negócio – deixa de fazer parte apenas das presidências dessas empresas de comunicação – para contaminar as redações – onde, outrora, ferveria os sentimentos de esquerda e o desejo absurdo por revelar fatos, descobrir escandâlos e, assim, cumprir com o o dever de cada um de nós, repórteres, jornalistas, comunicadores. Dúvido que os cientistas políticos, economistas e sociologos têm o tal do feeling e da disposição – e talvez até visão – de um repórter capacitado para tal, para entender um fato e transformá-lo em notícia. E, em última escala, contribuir para uma mudança da sociedade.

Quando comecei meu curso, na Salgado de Oliveira, tive o prazer de assistir as aulas do jornalista Antônio Martins – atualmente, ele atua como apresentador da Tv Jornal. O cara é um gênio e uma das figuras mais competentes da imprensa “pernambucana”. Coleciono, nos meus trabalhos da época, guardados com muito carinho, elogios e mais elogios dos professores. Posso dizer que eles gostavam dos meus textos!
Escutei numa palestra na Bahia o seguinte de um jornalista aposentado:
O fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo é uma derrota para a sociedade brasileira, não esta que discute alegremente conceitos de liberdade de expressão e acredita nas flores vencendo o canhão, mas outra, excluída da discussão sobre os valores e os defeitos da chamada “grande imprensa”. São os milhões de brasileiros informados por esquemas regionais de imprensa, aí incluídos jornais, rádios, emissoras de TV e sites de muitas das capitais brasileiras, cujo único controle de qualidade nas redações era exercido pela necessidade do diploma e a vigilância nem sempre eficiente, mas necessária, dos sindicatos sobre o cumprimento desse requisito.
Tenho ouvido, há anos, como continuei ouvindo, hoje, quando o STF decidiu por oito votos a um acabar com a obrigatoriedade do diploma, essa lengalenga interminável sobre os riscos que a liberdade de expressão sofria com a restrição legal a candidatos a jornalistas sem formação acadêmica específica. Esse discurso enviesado de paixão patronal, adulado aqui e ali por jornalistas dispostos a se sintonizar com os sempre citados países do Primeiro Mundo que não exigem diploma, gerou uma percepção falaciosa, para dizer o mínimo, de que para ser jornalista basta apenas ter jeito para a coisa, saber escrever, ser comunicativo ou, como citou um desses ministros do STF, “ter olho clínico”. Foi baseado nesse amontoado de bobagens, dentro de uma anti-percepção da realidade do ofício, que se votou contra o diploma no Supremo.
Conheço e respeito alguns (poucos) jornalistas, excelentes jornalistas, que sempre defenderam o fim do diploma, e não porque foram cooptados pelo patronato, mas por se fixarem em bons exemplos e na própria e bem sucedida experiência. São jornalistas de outros tempos, de outras redações, de outra e mais complexa realidade brasileira, mais rica, em vários sentidos, de substância política e social. Não é o que vivemos hoje. Não por acaso, e em tom de deboche calculado, o ministro Gilmar Mendes, que processa jornalistas que o criticam e crê numa imprensa controlada, comparou jornalistas a cozinheiros e costureiros ao declarar seu voto pelo fim da obrigatoriedade do diploma. É uma maneira marota de comemorar o fim da influência dos meios acadêmicos de esquerda, historicamente abrigados nas faculdades de jornalismo, na formação dos repórteres brasileiros.
Sem precisar buscar jornalistas formados, os donos dos meios de comunicação terão uma farta pescaria em mar aberto. Muito da deficiência dessa discussão vem do fato de que ela foi feita sempre pelo olhar da mídia graúda, dos jornalões, dos barões da imprensa e de seus porta-vozes bem remunerados. Eu, que venho de redações pequenas e mal amanhadas da Bahia, fico imaginando como é que essa resolução vai repercutir nas redações dos pequenos jornais do interior do Brasil, estes já contaminados até a medula pelos poderes políticos locais. Arrisco um palpite: serão infestados por jagunços, capangas, cabos eleitorais e familiares.
O fim da obrigatoriedade do diploma vai, também, potencializar um fenômeno que já provoca um estrago razoável na composição das redações dos grandes veículos de comunicação: a proliferação e a expansão desses cursinhos de trainee, fábricas de monstrinhos competitivos e doutrinados para fazer tudo-o-que-seu-mestre-mandar. Ao invés de termos viabilizado a melhoria dos cursos de jornalismo, de termos criado condições para que os grandes jornalistas brasileiros se animassem a dar aulas para os jovens aspirantes a repórteres, chegamos a esse abismo no fundo do qual se comemora uma derrota. De minha parte, acho uma pena.
Diante disso, respondo aos meus amigos e familiares: se tivesse que cursar jornalismo de novo, eu faria exatamente da mesma forma.